segunda-feira, 16 de maio de 2022
Escolha de Vagas - Escrivão 2022 - Academia da Polícia Federal
domingo, 6 de março de 2022
Uma depressão com um surto psicótico e dois Policiais Federais mortos em uma madrugada de terror em Tabatinga/AM
| Depressão Policial - Até quando o departamento ficará inerte? |
(...) na madrugada do dia 14 de outubro de 2002, na Delegacia de Polícia Federal em Tabatinga/AM, por volta das 3:30 horas daquele dia, inconformado por ter sido substituído no plantão, assassinou seus dois colegas de trabalho , os Agentes de Polícia Federal AMINDO JOÃO DA SILVA e GUILHERME AUAD MOURAD, após mantê-los, juntamente com outros Servidores, em cárcere privado por aproximadamente duas horas.
Assim eu começo meu texto. A
intenção não é chocar, é chamar a atenção para o grave problema que não só a
Polícia Federal vive, mas todas as polícias brasileiras estão vivendo, o
problema da depressão dos seus membros, culminando em suicídios e mortes. Vimos
isso nessa semana que passou (03/03/2022), quando o colega Lucas Valença teve
um surto psicótico, invadiu uma casa e foi morto pelo morador. O caso ficou
famoso e saiu nos principais jornais do Brasil, pois Lucas era conhecido
nacionalmente como o “Hipster da Federal”. Mas isso é outra história.
Voltando ao caso de tabatinga. Só
estou relatando aqui porque o caso se tornou público e possível de ler, na
íntegra, no site do TRF 1: https://trf-1.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/2242682/recurso-criminal-rccr-5933-am-20023200005933-4/inteiro-teor-100751163.
A história é horrenda e
possivelmente teria sido evitada se atentassem para o comportamento do colega
que já dava indícios fortíssimos de psicose, como a história a seguir:
Há relatos de que um dia ele
chegou no flutuante de Tabatinga à uma da madrugada, onde ficava a lancha da
Polícia Federal. Botou a arma na boca do vigilante e o mandou levá-lo do outro
lado do rio em Santa Rosa no Peru. chegando lá tomou umas e, após isso, botou
três mulheres na lancha e saiu de volta para o lado brasileiro. Porém, quando
chegou no meio do rio jogou as três mulheres na água. Apesar de o vigilante ter
relatado esse fato, segundo informações, nada foi feito pelo departamento.
Além desse, caso opte por ler o
caso na íntegra, verá que muitos outros fatos ocorreram já demonstrando que o
colega estava MUITO doente.
A partir desse ponto do texto eu
copio, com algumas correções gramaticais, o que está no processo público. Não é
fácil de ler, é chocante demais, mas acho que todos deveriam saber para
escancarar a doença vivida por muitos policiais. Segue:
“O crime ocorreu quando o
denunciado se encontrava de Plantão na DPF.B/TAB/AM, juntamente com a Agente de
Polícia Federal Cláudia Nascimento.
Em virtude dos constantes
abandonos do referido plantão por parte do denunciado, o qual deixava para sua
colega APF Cláudia, toda a responsabilidade pelas tarefas da delegacia, esta
APF, por volta das 20h do dia 13/10/2002, reclamou ao Chefe da Delegacia em
exercício naquele dia, APF Manoel Ricardo Silveira Batista Neto.
Ao constatar a veracidade das
reclamações, o Chefe da Delegacia, por volta das 22:30 h., determinou a
dispensa do plantão do denunciado, convocando para substituí-lo o APF Guilherme
Auad Mourad.
Visando esconder o verdadeiro
motivo da dispensa, o denunciado retornou ao prédio da Delegacia de Polícia
para fazer constar no Livro de Ocorrência o fato de ter sido dispensado por
motivo de saúde. Essa pretensão lhe foi negada por duas vezes pela APF Cláudia,
o que fez com que o denunciado, aproveitando-se da ausência temporária desta
APF da Portaria do Plantão, falsificasse de próprio punho o registro no Livro
de Ocorrência, fazendo constar o seguinte:
Por volta das 10:30h o APF
CLÁUDIO foi substituído pelo APF GUILHERME, pois não se sentia bem, digo
22:30h. Por volta das 23:30 comecei a queimar objetos quando percebi que sacos
que recebi do APF GUILHERME NA BASE ANZOL cheiravam a DROGA;
Aconselhado pelo Chefe da Delegacia,
APF Manoel Ricardo, para que retornasse para sua casa e tentasse se acalmar, o
denunciado passou a protagonizar verdadeiro escândalo naquela Delegacia que
culminou com o duplo homicídio praticado contra seus colegas. Inicialmente, de
arma em punho, dirigiu-se ao telefone público localizado em frente à Delegacia,
demonstrando que falava com alguém.
Nesse ínterim, e desconfiado das
intenções do denunciado, o Chefe da Delegacia, APF Manoel Ricardo, acionou todo
o efetivo, para que se dirigissem até a Delegacia a fim de atuarem em qualquer
eventualidade.
Ocorre que, antes que o efetivo
chegasse à Delegacia, o denunciado dirigiu-se ao Quartel do 8º Batalhão de
Infantaria de Selva localizado naquele Município, e, novamente de arma em punho
e recusando-se a entregá-la, exigiu, perante o Corpo da Guarda daquela Unidade
Militar, que fosse chamado naquele local o APF Manoel Ricardo, no que foi
atendido.
Fazendo-se acompanhar dos APF’s
Cláudia, Stela, Leandro e Márcia, o APF Manoel Ricardo dirigiu-se ao Quartel do
8º BIS, procedendo negociações com o denunciado para deposição da arma e sua
rendição. Nessa conversa o denunciado permaneceu de arma em punho, e, em tom
ameaçador, apontava-a, ora para o APF Manoel, ora par a APF Cláudia.
Após a conversa, ficou acertado
que o denunciado deporia a arma e se renderia na Delegacia de Polícia Federal
para onde se dirigiu na motocicleta da Polícia Federal que pilotava, escoltada
por militares do Exército Brasileiro.
Não obstante todo o processo de
negociação pacífica empreendido pelos seus colegas APF’s, ao retornar à
Delegacia de Polícia Federal em Tabatinga, o denunciado, ao contrário do que
havia acertado, rendeu, inicialmente, os APF’s Manoel Ricardo e Cláudia, para,
ato contínuo, render os APF’s Guilherme, Armindo e Stela e o Agente
Administrativo Valdir, mantendo todos sob cárcere privado, momento em que
apoderou-se da pistola do APF Armindo, ao perceber que este para se defender,
tentava sacá-la.
De posse das duas pistolas
engatilhadas, passou a apontá-las aos reféns, determinando ao APF Manoel
Ricardo que se deslocasse até a residência do denunciado a fim de “apanhar
suposta substância entorpecente que ali estava guardada, uma vez que” se dizia
achar “vítima de uma suposta armação por parte de pessoas que queriam prejudicá-lo”.
Em virtude da demora do APF
Manoel Ricardo em retornar, o denunciado decidiu deslocar-se até sua residência
levando consigo, sob a mira das pistolas, as APF’s Stela e Cláudia. Nesse
momento, a APF Cláudia, não suportando a ameaça e pressão do denunciado,
desmaiou tendo a APF Stela se recusado a acompanhar o denunciado porque não
queria abandonar a colega.
Diante de tal circunstância, o
denunciado determinou que os APF’s Armindo e Guilherme o acompanhasse, no que
foi imediatamente atendido, saindo os três da Delegacia em direção ao veículo
do DPF, marca Troller, que estava estacionado em frente da mesma.
Ali chegando, o denunciado, s em
qualquer motivo justificável, passou a efetuar disparos em direção a um veículo
Gol que se encontrava estacionado ao lado do Troller e, ato contínuo, iniciou a
execução de seus colegas que haviam concordado em obedecer-lhe aos comandos.
Inicialmente, desferiu sete tiros
à queima roupa contra o Agente de Polícia Federal Armindo João da Silva. Dois
tiros foram efetuados quando a vítima estava de frente para o denunciado. Ao
virar-se procurando fugir, a vítima continuou a ser atingida, e mesmo caída ao
chão, o denunciado ainda lhe desferiu cinco tiros, vindo a falecer.
Nesse instante, o APF Guilherme
Auad Mourad, que o havia substituído no plantão, visando desvencilhar-se da
ação assassina do denunciado, tentou inutilmente fugir, escondendo-se em baixo
de uma S10 que estava estacionada ao lado do Troller. O denunciado, então, de
forma covarde, vendo que a vítima ali se encontrava, agora, já ferida e sem
qualquer chance de defesa, abaixou-se, e friamente disparou vários tiros a
queima roupa contra seu colega, assassinando-o instantaneamente.
Tendo consumado os assassinatos,
o denunciado evadiu-se do local na motocicleta do DPF em direção à Colômbia, e
no meio do caminho efetuou ainda mais um disparo num posto de gasolina.
Quando chegou na fronteira do
Brasil com a Colômbia, o denunciado foi detido por Policiais Colombianos e
Policiais Militares Brasileiros.”
E essa foi a madrugada de terror,
do dia 14 de outubro de 2002, que ocorreu em Tabatinga no Amazonas.
Abaixo segue o depoimento ipsis
litteris, que ele fez após ser capturado e levado à delegacia da PF. Não
tenho ideia de como deve ter sido difícil os demais colegas ouvirem tamanha
loucura da boca de alguém que matou dois APFs.
“QUE em JANEIRO do ano em curso
descobriu que era portador de HPV; QUE foi liberado para fazer tratamento no
RIO DE JANEIRO, onde passou cerca de 01 (um) mês; QUE nesse período foi operado
de fimose, sendo que julga ter sido vítima de um erro médico que o incapacitou
parcialmente para exercício de atividade sexual; QUE nunca fez tratamento
psiquiátrico; QUE em TABATINGA/AM o AUTUADO estava tomando um remédio para os
nervos chamado PASSIFLORIN; QUE desde que fez a operação antes mencionada
acredita que está passando por sérios problemas metais; QUE acredita que está
sendo perseguido, porém não deseja declinar os motivos desta perseguição; QUE
nunca passou por uma situação parecida com a que ocorreu na madrugada de hoje
(14/10/2002), porém algumas semanas atrás efetuou um disparo em via pública
para se proteger de um ataque de cachorro, e por isso se encontra respondendo
um PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR; QUE procurou um médico local para falar
de seus supostos PROBLEMA MENTAIS e o mesmo receitou PARCIFLORIN e uma conduta
ambulatorial que não foi seguida pelo AUTUADO; QUE o AUTUADO na data de ontem
(13/10/2002), foi dispensado de seu PLANTÃO NA DELEGACIA, por volta de
22h30min, sendo substituído pelo APF GUILHERME em cumprimento a determinação do
CHEFE DA DELEGACIA; QUE meia hora depois retornou a DELEGACIA para informar
sobre uma suposta substância entorpecente que havia lhe sido dada pelo APF
GUILHERME como se fosse sílica gel; QUE foi o próprio AUTUADO que pediu de
GUILHERME a sílica gel para combater a umidade que havia em sua CASA; QUE o
AUTUADO acredita que estava sendo perseguido por pessoas que queriam a sua
morte; QUE o AUTUADO tentou se refugiar em um QUARTEL DO EXÉRCITO logo após ter
retornado novamente a DELEGACIA e discutido com o APF GUILHERME, haja vista que
o mesmo queria que o AUTUADO fosse para CASA; QUE no QUARTEL DO EXÉRCITO
atendeu solicitação do APF RICARDO para retornar a DELEGACIA; QUE ao retornar a
DELEGACIA efetivamente rendeu com sua PISTOLA ENGATILHADA O APF RICARDO e a APF
CLÁUDIA; QUE posteriormente rendeu todos os outros que estavam nesta DELEGACIA;
QUE se apossou da ARMA DO APF ARMINDO, uma PISTOLA calibre 9MM, com capacidade
de 08 (oito) tiros; QUE o AUTUADO comprou e portava uma PISTOLA TAURUS 9 mm, nº
TMH 07493 que ainda estava em nome do APF OSVALDO FAUSTINO BOTELHO; QUE não
havia passado a ARMA para o seu nome posto só podia fazê-lo após o ESTÁGIO
PROBATÓRIO de 03 (três) anos; QUE sua PISTOLA possui capacidade para 17
(dezessete) tiros; QUE após ter rendido todos nesta DELEGACIA O AUTUADO
determinou que o APF RICARDO fosse buscar em sua residência o restante da
suposta DROGA, que teria recebido como se fosse sílica gel do APF GUILHERME;
QUE o AUTUADO não tinha nada contra o APF GUILHERME e nem contra o APF Armindo;
QUE como o APF RICARDO estava demorando para retornar o AUTUADO decidiu ir
atrás do mesmo, sendo que decidiu levar consigo as APF´S STELA e CLÁUDIA; QUE
como a APF CLÁUDIA desmaiou na saída da DELEGACIA e a APF STELA se recusou a
ir, dizendo que queria ficar com sua AMIGA, os APF’S ARMINDO e GUILHERME se
ofereceram para ir no lugar de suas COLEGAS; QUE o AUTUADO pretendia entregar
as ARMAS que estava portando tão logo visse o APF RICARDO com o restante do
MATERIAL que pediu para pegar em sua residência; QUE ao sair na DELEGACIA com
os APF´S ARMINDO e GUILHERME, para apanhar o veículo TROLLER (viatura ostensiva
do DPF), o AUTUADO ouviu 02 (dois) tiros e pensou que estava sendo atacado; QUE
ato continuo efetuou vários disparos em um veículo GOL que estava ao lado do
TROLLER, e passou a atirar no APF ARMINDO; QUE procedeu tais disparos de forma
“instintiva”, QUE o AUTUADO como e quando deu os tiros no APF GUILHERME, não
sabendo explicar, portanto, como o citado POLICIAL veio a MORRER; QUE após ter
efetuado os disparos antes mencionados o AUTUADO pegou a MOTO que estava em
frente a DELEGACIA e fugiu em direção ao CONSULADO BRASILEIRO em LETÍCIA na
COLÔMBIA; QUE esperava obter asilo e proteção no citado CONSULADO’, porém foi
abordado na FRONTEIRA pela POLÍCIA NACIONAL DA COLÔMBIA e POLICIAIS MILITARES
BRASILEIRO; QUE após ter sido desarmado foi entregue ao APF RICARDO; QUE teve
sua integridade física e mental pelos POLICIAIS que efetuaram sua PRISÃO; QUE
não queria matar os APF’S ARMINDO e GUILHERME e encontrava-se arrependido do
que fez; QUE apenas queria voltar para o RIO DE JANEIRO ou APOSENTADO por
INVALIDEZ (MENTAL) ou em TRATAMENTO PSIQUIÁTRICO; QUE os U$ 1.962,0 (mil
novecentos e sessenta e dois dólares) encontrados em sua residência quando os
POLICIAIS foram pegar seus pertences foram adquiridos na CASA DE CÂMBIO local
CMM, e são fruto de seu salário ao longo do tempo que está em TABATINGA/AM; QUE
acompanhou espontaneamente na data de hoje (14/10/2002) a reconstituição do
CRIME onde foram ASSASSINADOS o APF ARMINDO e o APF GUILHERME; QUE novamente
ratifica que se encontra arrependido; QUE não toma remédio controlado para
PROBLEMAS MENTAIS; QUE não é usuário e nem dependente de substância
ENTORPECENTE; QUE na data de hoje efetivamente se negou a fornecer URINA e
SANGUE para EXAME TOXICOLÓGICO de dependência química.”
No dia seguinte ao homicídio,
conversando informalmente com o delegado Sérgio percebe-se a nítida perturbação
do acusado. Novamente colo aqui como escrito no processo, sem mudar
absolutamente nenhuma vírgula:
“DPF Sérgio – Você não é obrigado a falar se não quiser. Se você
quiser permanecer em silêncio, você pode. Agora, o mínimo que você pode fazer
pelos colegas que você assassinou é prestar as informações que a gente está lhe
perguntando. Lembre-se que um dia você foi Policial Federal, coisa que não vai
acontecer mais. Nunca mais você vai ser um Policial Federal. Agora você vai
responder por um crime que você cometeu. Você tirou a vida de um pai de família
e de um jovem que ainda tinha uma vida inteira pela frente. Eu vou fazer
algumas perguntas. Se você quiser responder você responde. Se você não quiser
responder não é obrigado a responder. Você entendeu? Entendeu? Pode falar?
CLÁUDIO – Eu não tenho nada para falar.
DPF Sérgio – Mas de qualquer forma eu vou consignar as perguntas.
Você sebe como funciona isso. Apesar de ser uma gente novinho, você já deve ter
visto algum flagrante. Mesmo assim, vou consignar as perguntas. O que levou
você ontem a agir do jeito que agiu? Não pretende responder?
CLÁUDIO – Se você me deixar... Eu não respondo não!
DPF Sérgio – Certo. Você atirou no APF Armindo e no APF Guilherme
na madrugada de hoje, causando a morte de ambos?
CLÁUDIO – Atirei.
DPF Sérgio – Certo. Qual foi o motivo de você ter atirado nesse
dois policiais?
CLÁUDIO – Tive. De ter tido um tiro. Desse tiro me causou um
pânico. Então eu atirei no carro da polícia e no momento vi o Guilherme. Eu
tava descontrolado. Eu vi o Guilherme pular no chão e eu tive que puxar a arma.
Aí eu atirei nele. E minha mão foi bem dizer automática. Entendeu? Com Armindo.
Foi um negócio assim automático porque o Armindo pulou no chão. E aí, eu falei,
tá acontecendo alguma coisa. Eu escutei um tiro e foi aquele horror, rololó
todo. Eu atirei, infelizmente.
DPF Sérgio – Você deu sete tiros no APF Armindo. Alguns pela frente
e outros pelas costas. Você tem ciência disso? Que você deu tiros no APF
Armindo pelas costas?
CLÁUDIO – Eu não tenho ciência porque não me lembro.
DPF Sérgio – Certo. Você se recorda....
CLÁUDIO – Eu não tenho ciência, mas eu lembro de ter dado pelo
menos cinco. Sete não! Pelo menos cinco.
DPF Sérgio – Certo. Você se recorda...
CLÁUDIO – Porque a pistola ainda tinha duas munições.
DPF Sérgio – Você se recorda de ter atirado no APF Guilherme quando
o mesmo se encontrava em baixo da viatura?
CLÁUDIO – Embaixo da viatura não. Eu lembro assim que ele tava
tentando ir para viatura, aí eu atirei. Eu lembro que a bala pegou na viatura.
DPF Sérgio – Mas se arrastando no chão? Ele estava no chão quando
você atirou nele?
CLÁUDIO – Ele... Ele tinha deitado no chão. Mas...
DPF Sérgio – Certo, você viu alguma arma com o APF Guilherme ou APF
Armindo? Viu?
CLÁUDIO – Sinceramente, com o APF Guilherme eu pensei de estar
vendo essa arma. Entendeu? Não sei se eu vi ou se eu não vi com o APF
Guilherme. Com o APF Armindo eu não vi arma nenhuma.
DPF Sérgio – De onde partiu esse tiro que você alega que foi
disparado e te assustou?
CLÁUDIO – Para mim, partiu de dentro do carro.
DPF Sérgio – O tiro partiu de dentro do carro?
CLÁDIO – Ou de fora, eu não sei.
Alguma coisa. Teve um tiro.
DPF Sérgio – Mas de alguém próximo do local onde aconteceu?
CLÁUDIO – Não.
DPF Sérgio – Onde foi que aconteceu isso?
CLÁUDIO – Em frente à delegacia.
DPF Sérgio – Em frente à delegacia? Você estava levando o APF
Armindo e o APF Guilherme pra onde?
CLÁUDIO – Levando eles pra minha casa pegar, para buscar...
DPF Sérgio – Pra buscar o que? Pra buscar o que , CLÁUDIO? As armas
que você usou foram de quem? Suas?
CLÁUDIO – Uma é minha.
DPF Sérgio – E a outra?
CLÁUDIO – Era do Armindo.
DPF Sérgio – Eles tentaram, que dizer, então eles não reagiram?
Você que pensou que eles tivessem reagido.
CLÁUDIO – Eu não sei, Doutor Sérgio. Sei que escutei um tiro.
DPF Sérgio – Você pretendia atirar neles quando saíam?
CLÁUDIO – Claro que não, pelo amor de Deus! Acredita em mim!
DPF Sérgio – Mas você estava com as armas engatilhadas, não estava?
CLÁUDIO – Estava pra minha segurança.
DPF Sérgio – Você não apontou essas armas para várias pessoas aqui
na delegacia? Engatilhada?
CLÁUDIO – Apontei.
DPF Sérgio – O que você pretendia, CLÁUDIO?
CLÁUDIO – Eu queria me defender, doutor.
DPF Sérgio – Defender de quem? Quem lhe agrediu?
CLÁUDIO – O senhor quer que eu responda, o senhor quer que eu
fique...
DPF Sérgio – Não, eu quero que você responda. Meu amigo, que coisa
abominável você fez! O que você fez é abominável. Eu lido com bandidos há sete
anos e nunca vi uma coisa tão abominável como essa de bandidos. Ainda mais de
um colega.
CLÁUDIO – Meu estado mental...
DPF Sérgio – Mas o estado mental... Você chegou a procurar algum
auxílio psicológico? Você foi a algum médico? Tem alguém que possa atestar pelo
seu estado psicológico?
CLÁUDIO – Fui.
DPF Sérgio – Quem?
CLÁUDIO – O próprio médico que fez a minha operação.
DPF Sérgio – Mas ele era psicólogo?
CLÁUDIO – Não. Ele era urologista.
DPF Sérgio – Psiquiatra você nunca foi a nenhum? Algum médico de
cabeça? Você chegou a se consultar pra dizer que estava com problemas mentais?
Que problema é esse que...?
CLÁUDIO – Consegui.
DPF Sérgio – Ouviu? Quem era o médico?
CLÁUDIO – Ah, Foi no doutor Ernesto, na doutora Vanda.
DPF Sérgio – É verdade que você tenha dito às pessoas, quando as
seqüestrou aqui, aos policiais, que pretendia se aposentar porque estava com
problema mental?
CLÁUDIO – É verdade.
DPF Sérgio – E se você fosse somente removido, também servia pra
você tratar o seu problema mental? Você disse isso?
CLÁUDIO – Serviria. Não, pra tratar o meu problema mental?
DPF Sérgio – Você disse isso?
CLÁUDIO – Não sei. Pelo menos eu melhoraria no Rio de Janeiro.
DPF Sérgio – No Rio de Janeiro. Quem efetivamente o estava
ameaçando? Na sua cabeça, quem estava ameaçando você? Quais são os nomes dessas
pessoas?
CLÁUDIO – Eu queria ficar vivo.
DPF Sérgio – Cláudio, você não pensou nisso quando tirou a vida dos
dois colegas.
CLÁUDIO – Tá, eu quero responder isso na Justiça.
DPF Sérgio – Tudo bem. É direito seu, é direito seu. Ninguém vai
obrigar você a falar o que você não quer falar.
CLÁUDIO – Me diga uma coisa: se eu falar só o essencial pra me condenar.
Só isso que eu quero.
DPF Sérgio – Certo. Desde quando você acha que está tendo problemas
mentais?
CLÁUDIO – Desde quando foi realizada uma operação em mim.
DPF Sérgio – Que tipo de operação?
CLÁUDIO – Uma circuncisão.
DPF Sérgio – Em que mês foi isso?
CLÁUDIO – Mês de janeiro.
DPF Sérgio – Janeiro desse ano? Você já era policial quando
aconteceu isso?
CLÁUDIO – Era.
DPF Sérgio – Você foi dispensado para fazer essa... para ir ao Rio
de Janeiro. Você fez no Rio de Janeiro essa operação? Foi?
CLÁUDIO – Foi.
DPF Sérgio – Foi, não é? Você foi dispensado. Quanto tempo você
passou dispensado para tratar disso aí?
CLÁUDIO – Bem dizer um mês.
DPF Sérgio – Um mês? E depois você retornou?
CLÁUDIO – Foi.
DPF Sérgio – E quantos meses de Polícia você tem?
CLÁUDIO – Dez meses.
DPF Sérgio – Dez meses? Sendo que um você passou afastado. Você tem
nove meses de Polícia. Alguma vez você sentiu essa vontade de sacar sua arma,
atirar nos outros, se sentiu perseguido, sentiu a necessidade de se defender
como ontem? Antes de ontem, você sentiu alguma necessidade igual a essa que
sentiu ontem?
CLÁUDIO – Sim.
DPF Sérgio – Quando? Não se recorda? Não se recorda? Você tinha
alguma coisa pessoal contra o Armindo ou contra o Guilherme?
CLÁUDIO – Não.
DPF Sérgio – Não tinha nada pessoal contra eles. Onde é que você
pretendia chegar quando você fugiu pra Colômbia? Você queria ir pra onde?
CLÁUDIO – Consulado brasileiro.
DPF Sérgio – Você queria ir pro Consulado brasileiro? Porque que
não foi? Foi abordado antes, não é? Mas no Consulado brasileiro você esperava o
que de lá?
CLÁUDIO – Esperava ir pro Rio de Janeiro. Ser... extraditado pro
Rio de Janeiro.
DPF Sérgio – Você tinha consciência que tinha atirado em dois
colegas? Você tinha consciência que tinha matado os colegas ou que só tinha
atirado?
CLÁUDIO – Não sei. Eu pensei... Eu pensava em várias coisas, Doutor
Sérgio. Eu estava pensando lá na cadeia. Entendeu? Eu tava pensando em várias
coisas. Eu pensei até... eu cheguei a pensar até em... não sei. As coisas que
aconteceram foram fazendo eu pirar, pirar. Fui delirando, delirando. Não sei.
DPF Sérgio – você avisou pra alguém que ia pirar? Que ia perder o
controle?
CLÁUDIO – Avisei.
DPF Sérgio – Quem?
CLÁUDIO – A várias pessoas no Rio de Janeiro. Várias pessoas.
DPF Sérgio – Mas aqui você avisou pro seu Chefe que ia perder o
controle?
CLÁUDIO – O meu Chefe, ele...
DPF Sérgio – Não. Eu estou perguntando se você avisou a ele: “Olha,
eu vou perder o controle se eu ficar aqui.”. Vou pirar. Você avisou a ele? Já
que você sentia que...
CLÁUDIO – Eu tentei. Entendeu? Eu tentei justamente fazer isso.
Entendeu? Eu tentei justamente fazer isso, fazer com que eu fosse embora pro
Rio de Janeiro removido ou pegasse meu atestado psiquiátrico e fosse embora. Eu
queria sair da Polícia, entendeu? Eu vou pagar, meu irmão! Eu perdi, eu perdi
pra tu nessa história toda. Entendeu? Eu perdi. Tem gente aí por cima fazendo
coisas, entendeu? Eu perdi.
DPF Sérgio – Perdeu o quê?
CLÁUDIO – Perdi. Não tem... o que eu queria na minha vida era
processar, no caso, o médico. Entendeu? Eu vi que não dava. Que aconteceram
coisas.
DPF Sérgio – Mas então me explica uma coisa, Agente Cláudio. Olha
pra mim, Agente Cláudio! Você ainda é um Agente de Polícia Federa. Então, pelo
menos, assuma sua responsabilidade como Agente de Polícia Federal enquanto você
ainda é – espero que por muito pouco tempo. Você tem consciência que você é um
Policial Federal? Que você matou outros policiais federais sem motivo nenhum?
Está ciente disso?
CLÁUDIO – Sem motivo...
DPF Sérgio – Sem motivo nenhum. Teve algum motivo? A não ser você
achar que houve, haveria uma reação?
CLÁUDIO – Sim. Eu...
DPF Sérgio – Em algum momento você pensou... Sim o quê?
CLÁUDIO – Não teve motivo nenhum.
DPF Sérgio – Em algum momento você pensou que poderia escapar
depois de ter assassinado os colegas?
CLÁUDIO – Não, não pensei que poderia escapar.
CLÁUDIO – Você iria fazer o que na Colômbia? Se entregar?
CLÁUDIO – Ia me entregar ao Consulado.
DPF Sérgio – Mas você ainda estava com as duas armas quando foi
interceptado. Não estava?
CLÁUDIO – Estava. Estava com as armas totalmente desmuniciadas.
DPF Sérgio – Certo. Você é da mesma turma do Guilherme, não é? Da
Academia?
CLÁUDIO – Sou. Eu fiz uma merda desgraçada. Se vocês quiserem me
matar vocês me matem, pelo amor de Deus!
DPF Sérgio – Cláudio, merda a gente faz quando a gente briga no
bar, merda a gente faz quando não faz os procedimentos direito, o que você fez
foi abominável e eu espero que você responda por isso. Pelo menos é o que nós
vamos nos empenhar aqui e fazer é reunir o máximo de provas para que a Justiça
possa julgar o seu caso com justiça. Mas eu vou logo te dizer: o mínimo que
você pode fazer pelos colegas que você matou é abrir o jogo e assumir suas
responsabilidades. Não faltou aviso pra você, pra ficar tranqüilo, nada... Todo
mundo tentou te ajudar, tentou fazer você se acalmar. Na verdade esse seu
desejo de...
CLÁUDIO – Não foi isso, Doutor Sérgio. Eu tentei com isso.
Aconteceu aquilo lá por causa desse disparo, por causa de alguma coisa. Eu não
sei. Não sei se tinha alguém dentro do carro. Como eu disparei sem querer.
Houve o disparo, desse disparo eu perdi o controle. Na verdade eu não queria. O
que eu queria, o que eu queria...
DPF Sérgio – Você atirou primeiro no Guilherme e depois no Armindo
ou primeiro no Armindo e depois no Guilherme?
CLÁUDIO – Nem sei. Bem dizer. Eu atirei nos dois. Porque eu estava
com uma arma em cada mão. Então eu vi o Guilherme puxar... sei lá fazer um
movimento, aí eu atirei. Aí eu vi...
DPF Sérgio – Mas para atirar no Guilherme você tinha que... ser
abaixado. Você abaixou ou não?
CLÁUDIO – Não sei. Foi atirando, tentando correr. Uma coisa
assim... Eu não sei.
DPF Sérgio – Por que você não entregou logo a arma para o Chefe da
Delegacia? Você achava que ele ia fazer alguma coisa contra você? Por que você
não entregou a arma para os Militares do Exército? Hein, Cláudio?
CLÁUDIO – Eu vou falar sério o que aconteceu. Eu estava me sentindo
ameaçado.
DPF Sérgio – Por quem? Mas em momento algum você pensou em se
matar. Não é Cláudio?
CLÁUDIO – Não, eu não pensei em me matar.”
Eu quis falar sobre esse caso
porque foi um fato importante que aconteceu. Vejam que essa doença policial não
é de agora, já que esse ocorrido foi em 2002, ou seja, 20 anos atrás. E, como
falei acima, semana passada veio a tona mais um caso de depressão e paranoia
que culminou na morte de mais um colega. Até quando será assim? Quantos
precisam morrer para que a polícia tome uma atitude?
Lembrando novamente que só estou
escrevendo este caso aqui porque foi tornado público, podendo ser lido
integralmente no site do TRF 1, conforme coloquei também acima no texto.
Para concluir, o ex-colega
Cláudio foi absolvido das acusações por ser considerado inimputável no momento
da ação. Não sou eu que estou dizendo. Na íntegra do processo é possível ler os
laudos psiquiátricos e tudo que comprova o fato da inimputabilidade. Segue
abaixo a sentença:
PENAL. PROCESSO PENAL. ABSOLVIÇÃO
SUMÁRIA. RÉU INIMPUTÁVEL. EXAME MÉDICO LEGAL. ISENÇÃO DE PENA. CPP, ART. 411.
CP, ART. 26. 1. Comprovado, mediante exame médico-legal, que o agente era, ao
tempo da ação, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de
determinar-se de acordo com esse entendimento, é de, sumariamente, ser
absolvido, nos termos do art. 411 do Código de Processo Penal. 2. O paranóico
sofre de uma confiança exagerada e tem medo, constante, de ser agredido, teme ser
humilhado, é um indivíduo incapacitado de conviver em sociedade, vive sempre em
estado de desconfiança, em estado de alerta imaginando que a qualquer momento
vai ser atacado. 3. Declarada a inimputabilidade, o agente não é condenado, é
absolvido, ficando, no entanto, sujeito a medida de segurança (CP, arts. 96 e
97). 4. Recursos e remessa oficial não providos.
(TRF-1 - RCCR: 5933 AM
2002.32.00.005933-4, Relator: DESEMBARGADOR FEDERAL TOURINHO NETO, Data de
Julgamento: 24/05/2005, TERCEIRA TURMA, Data de Publicação: 15/07/2005 DJ p.18).
Ps.: Se leram até aqui, por
favor, comentem. Podem perguntar o que quiserem.
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terça-feira, 8 de fevereiro de 2022
Recém empossados do concurso de 2021 - Sejam bem vindos à firma, novinhos!
Pela primeira vez na minha carreira
de Policial Federal tive a oportunidade de receber os novinhos (policiais que tomaram
posse recentemente). Quando os novos chegam na Superintendência, normalmente
eles passam por um estágio, de um ou dois dias, em cada uma das delegacias para
poderem ter uma noção de como cada uma funciona e poder opinar em qual delas
gostaria de trabalhar nessa primeira investidura. Falo “opinar” porque de fato
a escolha final não é deles e podem ser lotados onde não queriam.
Para aqueles que não estão
habituados vou explicar: uma superintendência é feita de várias delegacias especializadas,
cada uma com seu nicho de atuação. Se você é lotado em uma delas, 99% do seu
trabalho vai ser relacionado com aquele tema específico. Por exemplo, se você está
trabalhando numa Delegacia de Repressão a Crimes Previdenciários, essa será,
basicamente, sua área de atuação. Terá treinamentos específicos do tema e, com
algum tempo, você será especialista nisso. Pode acreditar, você fica bom nessa
porra! Logo que chega na delegacia parece que nunca vai aprender, é tudo muito
nebuloso e parece difícil. Mas depois, quando mal percebe, já tá arrebentando
nas investigações. É muito gratificante e, posso até dizer, divertido.
Depois que entrei na PF, em 2016,
chegaram mais três turmas de novinhos. Duas do concurso de 2018 e uma, agora,
do concurso de 2021. Mas nas duas de 2018 eu não participei da chegada dos
novos: na primeira turma que chegou do concurso de 2018 eu estava de férias. Quando
voltei eles já estavam com quase um mês de casa. Podem acreditar, o policial
com um mês de casa já é muito diferente de um que tem poucos dias, ganha
experiência muito rápido, ainda mais quando os antigos vão ajudando. Na segunda
turma de 2018 eu estava de missão em Brasília. Quando voltei eles já tinham mais
de três meses, os estágios já tinham acabado, e eles já estavam bem
familiarizados com o trabalho.
Nessa primeira turma do concurso
de 2021 eu tive a feliz oportunidade de receber policiais com apenas horas de
posse. Encontrei com a colega responsável pela posse dos novos no corredor
quando estava indo buscar um café, ela me abordou e disse: APF do Norte, esse
aqui é para a sua delegacia, pode levá-lo lá? Eu perguntei: ele tá tomando
posse agora? Ela falou, hoje pela manhã, e eu quero mostrar a sala da delegacia
e apresenta-lo lá, que segunda o estágio dele já é com vocês.
Nessa hora você olha para o
novinho, se apresenta, e percebe que os olhos dele estão brilhando. O cara
acabou de entrar na Polícia Federal e sabe que não é para qualquer um estar
aqui. Também sabe que não é qualquer polícia essa tal de Polícia Federal – é A
polícia! Pelo olhar dele é notório que nem ele acredita ainda. Só quem ingressa
na PF sabe a árdua batalha que é para estar aqui. Ele sabe que milhares
tentaram e não conseguiram, porém ele logrou êxito. Isso não há dinheiro que
pague. Falei para a colega: pode levá-lo lá, por favor, vou só ali na copa
pegar um café. Ela: deixa comigo.
Esse novinho do parágrafo acima
foi um dos últimos a tomar posse. Antes dele eu já tinha conhecido alguns.
Inclusive vários já tinham feito estágio lá na delegacia. Com a chegada deles o
clima de trabalho muda. Você os ouve nos corredores, no café, nas salas e até
no estacionamento. É contagiante a animação. Faz recordar de quando foi com
você, quando você chegou. Um dia todos fomos novinhos. A chegada deles traz
excelentes recordações. Sangue novo nas artérias da Polícia Federal, trazendo
oxigênio novo, que acabou servindo para renovar o meu ânimo também.
Sejam todos muito bem-vindos à
firma. Fico feliz em recebê-los e mais ainda de muitos que estão aqui terem participado
dos nossos simulados de informática. Agora vocês fazem parte da Polícia
Federal. Ontem era só um sonho e hoje você está aqui. Nunca esqueça de quão sofrida
foi sua batalha para que sempre possa dar valor à sua conquista. Aproveitem a
estada e curtam cada momento. Chega de bla bla bla e vamos trabalhar!
Ps.: Senhores, não se esqueçam de me seguir no Instagram: @apfdonorte
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Ppps.: Comentem e perguntem, sempre respondo a todos.
domingo, 18 de abril de 2021
O dia em que fui abordado de forma muito truculenta pela PM
sábado, 27 de fevereiro de 2021
Pontuação Mínima no Concurso de Remoção por Lotação - Agente de Polícia Federal (2020)
sexta-feira, 15 de janeiro de 2021
Pontuação Mínima no Concurso de Remoção por Lotação - Escrivão De Polícia Federal (2019)
domingo, 3 de janeiro de 2021
Aula de Simunition - Entrada em residência - Aulas da Academia Nacional de Polícia Federal - ANP
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| Munição de simunition! |
"Então estávamos encurralados. Nos cercaram em um corredor, não tínhamos onde nos esconder. Os disparos vinham pela frente e pela retaguarda...".
Durante a ANP temos muitas aulas bem legais e divertidas. As de simulação de qualquer tipo de ação policial são as melhores, na minha opinião. Eu sempre as considerava muito melhores que qualquer aula de tiro. Não sei se é porque atiramos até enjoar na academia, e acabamos por cansar de dar tiro. Mas eu realmente prefiro as aulas de simulação. Pena que, quando fiz a ANP, eram poucas.
Nesse dia seria uma aula de simulação no SEOP (Serviço de Ensino Operacional). A missão seria fazer a entrada tática em uma residência. Bandidos armados estaria nos esperando, que seriam representados pelos professores. Para fazer esse exercício nós e os professores usaríamos umas Glocks especiais, que são feitas para atirar munição de tinta, chamadas de simunition. As munições de simunition são quase iguais às reais, mas são feita pra serem usada nessas Glocks especiais, e seu projétil é uma capsula plástica com tinta dentro.
Perguntei o porquê de não usarmos armas e munição de Airsoft. Eu achava que, se usássemos Airsoft, esse tipo de aula poderia ser ministrado com muito mais frequência, já que sairia muito mais barato que usar simunition. Responderam que a intenção é parecer o mais próximo da realidade possível, por isso se usa esse tipo de arma e munição.
Para a atividade a turma foi separada em equipes de 5 e 6 componentes. Enquanto uma equipe fazia a entrada na residência, as outras ficavam fazendo outras atividades. Não me recordo quais eram essa outras atividades, mas provavelmente alguma outra simulação ou treinamento. Quando uma equipe terminava a simulação a outra entrava. As equipes que aguardavam não assistiam às que faziam a atividade, para não terem spoiler de como seria, e acabar acabando com a diversão dos professores (mas a frente vocês entenderão).
Os alunos e professores estavam equipados quase da mesma forma. Coletes e mascaras de proteção facial. Só tinha um porém: os professores, que simulariam os bandidos, estava equipados com os carregadores cheios de munição. Ou seja, tinham munição à vontade para gastar em nós. E nós, alunos, que simularíamos os policiais, estávamos equipados com apenas duas munições no carregador. Ou seja, nós seríamos mais os "alvos" que propriamente os atiradores (olha a diversão dos professores aparecendo).
Eles falaram que dessa forma, com pouca munição, seríamos forçados a treinar mais a nossa tática de entrada! Mas acho que eles queriam só se divertir mesmo nos usando de alvo. Acho que é aquele tipo de aula em que eles combinam entre eles de ser usada para desestressá-los. O briefing antes da aula deve ser assim: rapaz, nós vamos hoje detonar os alunos na bala de tinta, quem quer? Tenho absoluta certeza de que nesses casos sempre têm mais professores voluntário para participar que vagas disponíveis para dar aula. Afinal, quem não acha divertido maltratar de aluno? Pois é!
Voltando à simulação, finalmente chegou a vez da minha equipe de participar. Como eu já era policial e já tinha feito uma academia (PRF), os professores me mandaram ficar na retaguarda e entrar por último, pois queriam alguém que não tinha experiência policial para entrar primeiro. Mal eles sabiam que era a primeira vez que eu fazia aquilo!
Na minha equipe tinha uma menina que estava quase travada de medo. Será chamada, a partir daqui, de zero meia. Claro que eu estava ansioso e tenso, acredito que a maioria da equipe também estava, afinal era uma simulação bem realista. Mas nós conseguíamos não deixar isso nos dominar. Mas a zero meia estava quase colando as placas.
Ao chegarmos na residência simulada, batemos na porta e gritamos: Polícia Federal, abram! E ninguém respondeu. Um colega, que já era Policial Civil, gritou e bateu novamente. Não havendo resposta, então ele tomou a dianteira, meteu o pé na porta até ela escancarar.
Ele foi esperto, meteu o pé e saiu da frente, porque mal a porta abriu, já fomos recebidos uma chuva de bala vindas lá de dentro, em nossa direção. Acho que os professores tinham munição infinita, tipo nos jogos de vídeo game, porque os disparos simplesmente não paravam. Quando eles finalmente deram uma pausa, acho que para recarregar, a equipe adentrou para revistar o primeiro cômodo.
Só que a zero meia colou as placas e não entrou junto. Ela estava bem na minha frente na fila, por isso não consegui seguir a equipe, travado por ela. Então ficamos nós dois do lado de fora. Assim que a equipe passou pela porta, a chuva de bala voltou.
A parte da equipe que entrou ficou abrigada na parede do primeiro cômodo. Os tiros vinham de um quarto que ficava após essa parede, um pouco mais a frente. Se me recordo bem eram 5 na equipe. Então 3 entraram e 2 ficaram fora: eu e a zero meia. Mesmo com meus insistentes comandos para ela entrar, ela travou. Ficamos uns 3 minutos nesse impasse. Até que finalmente a convenci a entrar, após uma nova pausa dos tiros.
Nos juntamos à equipe que nos esperava no primeiro cômodo, em fila. Ficamos aguardando que os professores dessem uma nova trégua nos disparos para poder prosseguir. Quando finalmente isso ocorreu, o primeiro da fila, seguido por nós, rapidamente ganhou o corredor. Havia uma porta a esquerda, que já tínhamos visto da entrada. Por isso sabíamos que era, até agora, de onde vinham a maioria dos disparos. Fatiamos para entrar e rendemos os dois "bandidos" que ali se escondiam. Acho que eles já tinham ficado sem munição, porque não atiraram e nem tentaram.
Voltamos para o corredor e prosseguimos. Nesse corredor havia mais duas portas, uma em frente a outra, ambas abertas, com mais dois cômodos. Na posição em que estávamos não dava para ver os seus interiores. De repente saiu um professor atirando de uma das portas e entrou na outra. Nessa hora todos atiraram nele também. Foi um "barata voa" da porra!
Uns gritavam: parado polícia. Outros gritavam de dor porque já tinham sido atingidos pelos primeiros disparos. Como sou azarado, eu era um dos que gritava de dor, mesmo estando quase no final da fila, tinham me acertado. Você ser acertado não te "matava". Podia prosseguir na simulação. Nesse "barata voa" todos da equipe gastaram suas munições.
Então, para piorar, enquanto o maldito professor ficava cruzando nossa frente atirando, também apareceu um professor pela nossa retaguarda e começou a disparar. Agora estávamos sem munição e encurralados no corredor. O professor ainda continuava passando pela nossa frente, de um cômodo a outro, nos usando de alvo, enquanto o outro aparecia pela retaguarda no corredor e disparava também. Era uma chuva de gritos de dor. E tome tiro nos alunos encurralados.
Esses tiros de simunition doem e podem até causar pequenas lesões. Logo no começo, quando o professor cruzou nossa frente pela primeira vez, tomei um tiro no dedo que achei que tinha arrancado uma falange. Porque doeu muito e depois ficou dormente. Estava escuro lá dentro da casa e não dava pra ver se o melado no meu dedo era sangue ou tinta do projétil.
Enquanto eu pensava se ainda tinha parte do dedo e onde estaria perdida a minha falange, a cena mais cômica da aula acontecia: Cinco alunos encurralados, um tentando usar o outro de escudo, tomando tiro de "festim" dos professores, que atiravam à vontade. Para nós: dolorido. Para eles: muito divertido!
Os tiros finalmente cessaram. Acho que ficaram com pena. Nós pudemos finalmente prosseguir, fingindo que ainda tínhamos munição, apenas para terminar a simulação. Com certeza o objetivo era fazer a gente se fuder. Não consigo enxergar outro propósito nessa aula! E esse intento foi concluído com sucesso.
Ao terminar o exercício, fomos olhar os danos. Meu dedo ainda estava no lugar, e íntegro! O que eu achava ser sangue, era só tinta mesmo. Não teria que procurar minha falange dentro da casa. Os egos estavam meio abalados e a zero meia estava em choque, pensando se tinha escolhido o concurso certo.
Fomos para a próxima aula sujos e com alguns hematomas. Apesar disso a aula foi bem divertida. Vida que segue!
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2020
Pontuação Mínima no Concurso de Remoção por Lotação - Agente De Polícia Federal (2019)
Pessoal, finalmente as vagas da última remoção do cargo de Agente de Polícia Federal, com suas respectivas pontuações mínimas. Ou seja, essa planilha indica qual é o mínimo de pontos que você precisar ter acumulado para conseguir ser removido para determinada cidade.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2020
Livro com Histórias Policiais Reais Inéditas contadas por um Agente de Polícia Federal!
Senhores, finalmente saiu o livro. São 79 páginas com contos policiais reais e muitas histórias inéditas. Eu espero de coração que gostem.
Para comprar basta clicar no Livro no canto superior direito, ou na imagem dessa postagem acima!
O livro custa só R$27,90. E para quem comprar até dia 04/12/2020, tem um cupom de 30% de desconto. Basta digitar na hora da compra: marcozero
Abaixo o sumário, para deixar os senhores ainda com mais vontade de ler.
Sumário:
Agradecimentos .................................................................................................... 3
O começo do sonho.............................................................................................. 4
A trajetória ............................................................................................................ 7
As Academias de Polícia .....................................................................................15
Por que eu troquei o cargo de Policial Rodoviário Federal pelo cargo de Agente de Polícia Federal ................................................................................................21
Primeiros dias de Trabalho ..................................................................................24
Primeiros dias na Polícia Rodoviária Federal: Quero PIsta! .............................24
Primeiros dias na Polícia Federal: Quero ação! ...............................................26
História 01: Tentativa de furto aos correios e a primeira vez que precisei me identificar como Agente de Polícia Federal. ..........................................................................31
História 02: Missão na Base Fluvial no Amazonas ...........................................35
História 03: Vamos pegar um traficante? ..........................................................41
História 04: Presos do colarinho branco e a realização da profissão ...............45
História 05: Uma fotografia muito cara .............................................................50
História 06: Fogo amigo – Nem tudo são flores na Polícia Federal ..................56
História 07: Reintegração de Posse em Área Federal .....................................62
História 08: Operações de Busca e Apreensão ................................................67
Busca e apreensão na cadeia .......................................................................68
Quando a curiosidade do vagabundo ajuda a polícia ....................................71
História 09: Um Político Vagabundo a Menos ..................................................74
Considerações Finais .......................................................................................79
sábado, 28 de novembro de 2020
O que faz um Papiloscopista de Polícia Federal? Eu descobri!
Senhores, conversei com um PPF - Papiloscopista de Polícia Federal. E ele me relatou o que um papiloscopista realmente faz. Eu brinquei muito no Instagram sobre esse assunto, mas abaixo eu vou deixar o relato dele, ipsis litteris. Segue:
A gente fica lotado nos NIDs das superintendências e algumas delegacias, não é incomum os papiloscopistas de delegacias estarem fazendo o trabalho tal e qual dos agentes, seja por escolha ou por não ter o aparato técnico mínimo pras funções do cargo (pericial e afins).
As demandas de rotina são perícias em locais de crime e veículos envolvendo correios e caixa econômica, mais comumente. Sempre buscando vestígios de identificação por impressão digital. Das impressões coletadas a gente alimenta um imenso banco de dados pelo qual é possível confrontar a impressão desconhecida do local de crime com uma já conhecida de um prontuário civil ou identificação criminal anterior, por exemplo.
Tem uma parte, que é a mais demandada por sinal, administrativa. O escriba envia as BICs e nós retornamos a Ficha de Antecedentes Criminais. É função dos papis administrar e alimentar o sistema de informações criminais (SINIC) e é do Sinic que são emitidas as FACs.
Outra atribuição é a emissão de passaportes e carteiras funcionais dos colegas ativos e dos aposentados;
Tem a parte de representação facial humana que é o retrato falado e projeção de envelhecimento;
Da para dividir o cargo em funções administrativas e técnico científicas nessa parte mais pericial.
Fora isso você está livre pra participar de missões na qualidade de EPA (Escrivão, Papiloscopista e Agente), sem distinção.
E sim, somos poucos. No mínimo 5 por superintendência. Às vezes mais, às vezes menos. Aqui na minha somos 8.
Além dessas atribuições que falei acima, tem a necropapiloscopia abrangendo identificação de cadáveres e vítimas de desastres como na barragem de Mariana e a queda do voo da chapecoense.
ps.: Galera, tá aí o relato. As atribuições são interessantes, e são atividades que ajudam demais no trabalho investigativo.
pps.: Não sei que porra é BICs nem FACs. Nem adianta perguntar nos comentários. Se os colegas que leem aqui souberem, favor comentar. NIDs também.
ppps.: Não esqueçam de seguir no Instagram @apfdonorte - lá eu interajo com os leitores e sou bem mais divertido que aqui :P



