domingo, 5 de fevereiro de 2017

Mais uma missão contra o tráfico de drogas!

Informação passada pela inteligência: traficantes vão fazer uma entrega numa fazenda X, de 40 quilos de cocaína/ pasta base. Objetivo da missão: Interceptar a droga e o comprador com o dinheiro, carro e tudo que puder mais. Busca e apreensão caso dê o flagrante.

E foi assim que começou uma das missões mais legais que já participei. Foram divididas uma equipe de vigilância e uma equipe de assalto. Eu fiquei com um dos rádios da equipe de vigilância.

Chegamos de carro a alguns quilômetros do local onde os compradores iriam buscar a droga. O restante iríamos a pé pelo meio do mato. Estava chuviscando. Isso é ruim pela sensação de ficar todo o tempo molhado. Mas é bom para chegarmos mais perto do alvo sem sermos notados, já que o mato molhado não estala e o barulho da chuva confunde quem tenta ouvir alguém se aproximando.

O local era uma fazenda no meio do nada. Cercada de mato e estrada de terra. Tinha uma casinha pequena no lugar, onde se acreditava estar o vendedor da droga e a droga. A inteligência nos passava pelo rádio as ligações em tempo real feitas pelo comprador com o vendedor.

O rádio também servia para comunicar com a equipe de assalto e avisá-los quando seria a hora de agir. Porém, chegamos de tardezinha no local. Ainda muito iluminado para chegarmos perto. A equipe de vigilância tentaria chegar o mais perto possível. Perto o suficiente para tentar ouvir a conversa dos traficantes. Para isso teríamos que aguardar a noite cair. E assim fizemos. Avisei no rádio: pessoal, não tem como chegar mais perto de dia. Vamos aguardar a noite para aproximar bem. Tivemos que esperar uns 40 minutos.

Ao cair da noite, começamos a nos mover novamente. Rastejando no mato alto, com todo o cuidado. O rádio ia no volume mínimo para que não fôssemos descobertos. Até a luz piscante do rádio eu tinha que tampar com o dedo para não nos denunciar.

Atravessamos um ramal (pequena estrada de barro) com todo cuidado, pois ali poderiam nos ver fácil, já que estaríamos momentaneamente sem a proteção do mato. Chegamos perto da cerca da fazenda, bem próximo a casinha. Podíamos ouvir as ligações do traficante com o comprador, que depois nos era passada pela inteligência. Mas ouvíamos em primeira mão, antes da inteligência nos passar, e começamos a manter a equipe de assalto atualizada.

Nessa hora temos que segurar a ansiedade, pois poderíamos perder tudo caso fôssemos precipitados. Tínhamos que esperar a droga e o comprador estarem juntos com os traficantes.

Nós estávamos parados bem perto de uma estrada a qual nem eu nem a equipe tínhamos visto. E foi um vacilo que quase nos custou a missão. Num certo momento o traficante mandou o outro pegar alguma coisa no fundo da fazenda. Chamá-lo-ei de Bilu. Bilu foi buscar algo e saiu caminhando na nossa direção. Foi quando eu percebi o quão próximo dessa estrada nós estávamos. Porque ele veio quase pisar na gente. Abaixamos as cabeças e torcemos para que ele não nos visse. Passou a menos de 1 metro de distância. Coração batendo na garganta. Bilu foi e voltou, mas não nos viu! Essa foi por pouco. Por muito pouco.

De repente começamos a ouvir barulho de carros se aproximando. Era a compradora. Chegou fazendo muito barulho, podíamos ouvir claramente o que ela queria: A cocaína. Nessa hora a equipe de assalto falou no rádio: vamos entrar! Pude perceber que eles também estavam bem próximos e ouviram a conversa, ou ela falou alto demais.

Eu falei pra equipe: segura, não sabemos se o traficante já pegou a droga escondida. Eles me escutaram e seguraram. Até que o traficante anunciou que estava com a cocaína em mãos, e perguntou para a compradora: - cadê o dinheiro? A compradora foi buscar no carro. E, nessa hora, antes mesmo da equipe de vigilância gritar para atacar, a equipe de assalto saiu do mato gritando: Polícia Federal, ninguém se mexe!

Pegamos a droga, o dinheiro, e recebemos muitos parabéns dos professores que estavam coordenando o exercício. Porque na ANP você também pratica como se fosse real. E foi bom demais. E percebemos que é muito mais tempo de preparação que de ação.

ps.: Sugestão de textos são sempre bem vindas.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Policial na cadeia, mas bandido solto

Uma coisa que me deixa muito triste é ver colega sendo preso por agir como policial. Por agir como o treinamento mandou agir. A última foi o PRF que, para evitar que uma Hilux com o motorista bêbado prosseguisse viagem, no Mato Grosso do Sul, acabou por matar o motorista, em legítima defesa, após ter sido vítima de tentativa de homicídio. Sim, eu acredito na versão do colega PRF.

Vamos considerar as contradições nas versões e para quem devemos dar créditos. É a palavra de um Policial Rodoviário Federal, concursado e de reputação ilibada contra 2 ocupantes do carro que estavam bêbados (eram 3, mas um não tinha condição de contar a história, né!). O que a imprensa leva em consideração? Aquilo que vende. A notícia veiculada foi: Policial mata empresário em briga de trânsito. Ponto final.

Os promotores de justiça nem querem saber da verdade, querem fazer pontos com prisões e acalentar o clamor da população incitado pela notícia midiática, no mínimo, duvidosa. Pedem a cabeça do policial para o juiz. O juiz, que em primeiro momento havia dado crédito para a versão do policial, volta atrás e manda prendê-lo preventivamente. Ou seja, um policial, agindo como policial, está, agora, preso.

Vamos supor também que se prove que a versão do PRF é a verdadeira: ele já gastou pelo menos R$ 50 mil com advogados, ficou preso e a mídia já o condenou. Esse dinheiro, a reputação e a tranquilidade perdida ele não terá de volta. Sendo que ele não fugiu da cena do ocorrido. Fez tudo direitinho. Qual é a ameaça que esse policial de passado ilibado oferece à sociedade? Ou seja, mesmo ele provando que fez tudo certo, sempre, no caso do policial, se tem muito a perder.

Agora vejam essa notícia: Suspeitos detidos com fuzil, pistola e maconha no Morro da Coroa são soltos em audiência de custódia. Os bandidos foram soltos porque o flagrante foi considerado frágil para a juíza. Cadê os promotores ávidos por sangue para pedir a preventiva desses caras. Será que uns suspeitos detidos com fuzil não são ameaça à sociedade, mas o PRF, exercendo seu trabalho, o é?

A polícia, por ter sido truculenta por tanto tempo, tem sua parcela de culpa. Mas está na hora de começarmos a dar, pelo menos, algum crédito para as ações policiais. A polícia tem se reciclado e melhorado a cada dia. Se os homens e mulheres que trabalham nessas forças começarem a deixar de agir com medo de serem presos e perderem seus trabalhos, meu amigo, o batman não vai dar conta.

E a pergunta que o juiz ou os promotores do caso deveriam se fazer é: por que um PRF treinado, sem nenhum antecedente de abuso de autoridade ou truculência mataria por uma briga no transito? Por que dar 100% de crédito para os bêbados? Por que ele ligaria para o 190 antes de efetuar os disparos e depois ainda esperaria a PM chegar? Se ele realmente quisesse matar e fugir, teria feito tudo isso? Se a resposta for não, então, na minha opinião, a atitude do juiz e dos promotores, assim como a notícia da imprensa, é, no mínimo, questionável, não?

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Mudança de cidade e novas perspectivas

Esse ai, de embuste, certeza que aprendeu a cozinhar e comprou panelas boas! GPI tem que saber cozinhar!!


Senhores e senhoras, ao passar num concurso federal - isso serve para esses concursos que provavelmente você terá que mudar de cidade (PF, PRF, Receita) - sua vida toda muda. Você sai da sua zona de conforto e provavelmente vai para uma cidade estranha com uma cultura distinta e, para os que moravam com os país (meu caso), têm que aprender a se virar sozinho em tudo. E é ai que eu quero chegar. (Eu me virava bem sozinho, mas não cozinhava, por exemplo. Antes que me chamem de "menino  criado com avó").

Quando você passa no concurso, tudo é festa e a felicidade é plena. Amigos e família parabenizando. Você será o exemplo para os primos, tios, sobrinhos. Vão falar: O APF do Norte que mandou bem. Ele é um exemplo a ser seguido. Pronto. Fim da parde fácil (fácil pra quem vê de fora!).

Após as festas e passadas todas as etapas do concurso, vem a posse. Bom demais, você se sente muito bem. Cidade nova, vida nova. E com isso novas experiências (lindo hein!!). 

Mas ai chega a hora de você descobrir como usar uma máquina de lavar, que a louça não some da pia, e que se você bagunçar, vai ficar bagunçado. Descobre também que comer em restaurante todo dia sai caro, e que você precisa aprender a cozinhar de verdade, já que comer só miojo não é uma opção.

E essa parte de cozinhar foi a parte mais traumática para mim. E para você não passar pelo que eu passei, vou dar uma dica valiosa: compre panelas boas. Aquelas de teflon que não grudam. Eu gastei uma grana num jogo de panelas de ferro, achando que tudo tava certo, que bastaria. E agora estou gastando outra grana em panelas de teflon, porque é praticamente impossível cozinhar em panelas que grudam. A não ser que você queira perder tempo ariando panelas e deixando elas lá de molho por alguns dias para tirar a comida grudada no fundo. Alguns vão dizer: nem gruda! Não acredite neles. Gruda, e gruda forte.

Lembre que na sua primeira lotação você provavelmente passará alguns anos, então gaste em conforto. Pague internet, tv a cabo, compre vídeo game, conheça gente da cidade, participe da vida como se fosse a sua cidade, porque, de fato, é! Faça amigos fora da Polícia - meu caso -, ou fora do ambiente do trabalho.

Não sofra só pensando na data da volta pra casa. Aproveite o lugar. Usufrua do que ele tem de melhor, se afaste dos colegas que só reclamam e falam mal. Lembre-se de quanto você lutou para estar aqui, e quantos não queriam estar no seu lugar. Caceta, você passou num concurso federal. Lembre-se sempre disso quando o desanimo bater e a saudade apertar.

Eu fiz tudo isso. Aluguei um apartamento bom. Trouxe meu carro. Comprei uma TV boa. Cama boa. Arcondicionado (no norte é fundamental). Internet. Ah, comprei panelas boas... eu já disse isso? Cumpra e curta o seu trabalho. O tempo voa e logo você volta para casa. E aí vai sentir saudades da sua cidade do interior, porque ele se tornou seu lar, mesmo que seja por apenas poucos anos. Eu estou a poucos meses na minha lotação e, se fosse removido para casa amanhã, já sentiria muitas saudades daqui.

ps.: Panelas boas. Jamais esqueça isso.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Primeira busca e apreensão da minha vida na Polícia Federal



O delegado manda no grupo: Amanhã teremos uma busca e apreensão, alguém se voluntaria? E o novinho aqui, empolgadão, é um dos primeiros a levantar a mão. Beleza, amanhã, todos na delegacia às 3h30. Sairemos 4h para o ramal tal, para pegar o traficante X, que está traficando mesmo com a tornozeleira eletrônica.

Acordar 2h30 da manhã não é uma coisa gostosa de se fazer, pensei. Já comecei a me indagar se eu gosto mesmo desse negócio de busca e apreensão. Fico me perguntando: porque os bandidos não trabalham somente em horário comercial, hein? Não seria melhor para todos não?

Na operação para pegar esse traficante, eram 4 PFs, e mais uma galera de outras forças. Quanto mais, mais né? Menos chance de reação e é mais seguro. Porém, maior a chance de vazamento da informação de que estamos indo e de verem que estamos chegando.

Aqui, na fronteira, esses caras moram em ramais (ramal é uma pequena estrada de barro cercada por floresta ou fazendas). E, se sentirem o menor perigo, um cheiro que seja de polícia, correm para dentro do mato, e não tem quem ache. A área de busca é gigante e não temos cachorro. E esses ramais são pouco movimentados. Então qualquer movimentação a mais gera suspeita. Mas era o jeito ir assim, e fomos.

Chegamos na casa de X umas 6h. De madeira, paupérrima. - Polícia, abre! Gritamos. A mulher de X abriu, com um bebê no colo. A casa era pequena, quente, toda suja. Para a nossa surpresa (nem tanta assim!) o traficante tinha fugido. Certeza que viram a gente chegando e ligaram avisando. Pelas informações da tornozeleira, ele tinha ido para o mato e depois cortado e jogado ela fora.

Ainda tentamos encontrá-lo, as drogas e tudo mais, mas sem sucesso. A área era muito grande. As buscas foram infrutíferas. Voltamos umas 13h pra delegacia. Trouxemos alguns objetos suspeitos da casa. Mas nada tão relevante em curto prazo.

Perdemos essa apesar dos esforços. Fica para a próxima.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Operacionalidade da Polícia Federal


Vídeos motivacionais sempre foram o forte da PF. Vários circulam pela rede mostrando altas operações mega fodas onde o cara faz e acontece, tipo o filme do Rambo. Mas a realidade não é assim tão emocionante, mesmo porque se fosse assim, pouca gente aguentaria.

95% do trabalho da Polícia Federal é burocrático. Não há emoção provocada por adrenalina. Claro que você investigar e achar um criminoso com essa investigação é emocionante. Mas em se tratando de emoção causada por explosão, tiro e bomba, realmente é bem pouco.

Pouca gente aguentaria tanta atividade perigosa. A grande verdade é que a atividade perigosa é mais divertida quando nós não estamos correndo risco de vida. Normalmente isso acontece quando vemos os filmes. Emoção perigosa sem correr risco = filme!

Eu mesmo me acho corajoso, nunca arreguei em nenhum treinamento e nem em nenhuma atividade policial. Mas quando tivemos que ir na casa de um traficante eu fiquei bem nervoso. E olha que eu já era PRF antes de ser PF. O bom é enfrentar esse nervosismo. Mas imagina você numa atividade que troca tiro todo dia? Só em filme que aguentam isso.

Então, não se iluda. Polícia Federal é principalmente polícia de inteligência. Operação tranquila pra pegar políticos corruptos e outros crimes de colarinho branco. Não ache que vai viver no mundo dos filmes, porque não vai!

ps.: Alguém ainda tinha dúvida sobre esse assunto? Acho que não, né? :)

segunda-feira, 4 de julho de 2016

A carapuça serviu, senhor prefeito?


De repente o telefone toca. Eu atendo:

 - Polícia Federal, bom dia.
 - Bom dia, aqui é fulano de tal, me ligaram daí, e estou retornando a ligaçao.
 - O senhor sabe quem ligou?
 - Não.
 - Então aguarde que provavelmente ligarão de novo. São muitas pessoas aqui na delegacia, não tenho como saber quem ligou também.
 - Ok. Obrigado.

À tarde, o telefone toca mais uma vez, atendo e é a mesma pessoa:
  - Polícia Federal, boa tarde.
  - Boa tarde, aqui é fulano de tal, é que me ligaram daí de novo, e estou retornando, novamente.
  - O senhor já sabe quem ligou?
  - Não.
  - Bom, irão ligar de novo, fique tranquilo.
  - Sabe o que é, é que eu era prefeito da cidade XYZ, e estou preocupado, já que a PF está me ligando.
  - ... ()

Fui falar com o pessoal do núcleo de operações ... realmente ele deve ficar preocupado, me disseram lá.

É, ex prefeito ligando para a delegacia com alguma preocupação, gente boa não deve ser. Se não devesse nada, não teria o porquê da preocupação, certo?

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A polícia é feita para a população!

Hoje a história não tem nada de policial. Tendo dito isso, vamos a ela.

Eu me solidarizo com as pessoas. Principalmente com as mais necessitadas. E quando elas são injustiçadas, isso me deixa com lágrimas nos olhos. Elas não tem a quem recorrer. Não tem quem as proteja, se não a polícia e ao Ministério Público. E muitas vezes a polícia não se interessa, e isso me deixa puto. Sério que você está vendo alguém precisando muito de ajuda e não vai nem tentar ajudar? Você é o que eles têm de recurso! E outras vezes não temos como ajudar. E isso me deixa triste. Porque o MP é lento devido à grande quantidade de processos. Mas quem tem fome tem pressa, aplicando esse ditado a direitos lesados.

No interior onde estou, atendemos muitas pessoas carentes. A grande maioria! Para vocês terem uma ideia, 40% da cidade vive de bolsa família ou algum tipo de auxilio governamental, como o auxilio pescador (nem tenho certeza se esse é o nome do auxilio).

Uma grande parte é agricultor. Agricultura pequena, já que aqui na selva não se pode ter grandes latifúndios desmatados, conforme leis ambientais. E isso prejudica muito o pequeno agricultor. E finalmente chegamos na parte da história onde eu queria chegar.

O ICMBIO é o órgão que faz diversas incursões nos interiores daqui para fiscalizar esses desmatamentos desregrados. E ele tem poder de multar, com multas pesadas, quem desmata fora das regras.

Um senhor e sua família vieram prestar depoimento sobre um crime ambiental ocorrido em algum lugar, que eu não sei onde é. Conversei com ele um pouco. Senhor matuto, com mais de 50 anos, mãos calejadas da agricultura e pecuária, porém muito inteligente.

Eles foram intimados pelo rádio, estão hospedados numa cidade que fica a 1 hora de viagem daqui. Porém, de onde eles moram, para chegar nessa cidade, demoraram 2 dias de viagem. Veja bem, os caras vieram depor, por intimação por rádio, numa cidade que fica a 2 dias de distância. Se fosse comigo, com meus conhecimentos, eu não viria. Mesmo porque nesse tipo de intimação, caso eles não aparecessem, não aconteceria nada. Mas as pessoas são honestas e querem resolver seus problemas. Eles vieram apesar dos pesares.

E o senhor, pai da família, estava me contando que o ICMBIO foi nas terras dele, multou em mais de R$ 50.000,00 e, para pagar isso, levou 35 cabeças de gado da fazenda dele de forma tomada, ou seja, foram lá com a polícia civil e tomaram o gado, obrigando ele a pagar a multa (dentro da lei). Digam-me quem entende, qual é a eficácia desse tipo de medida? A pessoa vive disso. Agora o gado tá em algum lugar, morrendo, segundo ele, já que o estado não consegue cuidar e nem tem recursos para isso. Por que não orientar e ensinar uma pessoa dessas, para que não faça de novo e aplique os novos conhecimentos com os filhos/netos e amigos?

Agora ele está correndo atrás do MP para tentar reaver as cabeças de gado, caso sobre alguma viva. Porém o MP fica aqui na cidade, 2 dias de viagem de distância da fazenda dele. E o cara não tem recursos e nem tem quem ajude. É triste ver o estado fazendo isso com pessoas necessitadas de fato. Sou um policial de coração mole, isso que eu percebi. E me sinto de mãos atadas. O meu "escape" foi relatar aqui. Talvez eu me sinta um pouco melhor.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Peripécias dos usuários


Voltamos à BR. Operação carnaval. Fazendo uma ronda pela rodovia, de olho nos incautos, pois eles não têm vergonha de fazer besteira nem quando estamos à espreita, e de viatura ostensiva, giroflex ligado e tudo mais.

Uma picape fez uma ultrapassagem em faixa contínua, colocando em risco a si mesmo e outros motoristas que poderiam vir em sentido oposto. Mandamos encostar.

O motorista ainda fez cara de espanto. Fico impressionado! Ao olharmos o carro, 8 pessoas num carro que só cabem 5. 3 crianças de colo, sem cadeirinha, sem cinto, sem proteção nenhuma.

Fizemos todos os autos (multas) merecidos, uns 4 pelo que eu me lembre. No final, o motorista foi informado dos autos e se desesperou. A mulher dele chorou, as crianças não entenderam e começaram a chorar. Foi um chororô danado. Então, ele vem em minha direção, andando tão rápido que me fez até esperar uma agressão. Chegou perto de mim e disse: por que o senhor não pega logo sua arma e dá um tiro na minha cabeça?

Era tudo que eu queria, precisava ouvir um pedido desses. Saquei a arma e apertei o gatilho. Miolos ao chão. Desespero da família, que apesar de não saberem, eu acabara de os salvar. Porque com um pai daqueles tentando matar todo mundo na BR, eu posso me considerar salvador, não?

Mas ai eu sai do meu mundo de imaginação e vontades e só mandei ele deixar de drama e ir embora. E a família e as crianças pegaram um ônibus. E assim segue a vida, com todos vivos, inclusive o que cometeu a tentativa de múltiplos homicídios, no caso, o pai.

ps.: A parte que ele pediu o tiro é verídica.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Missão: resgate noturno de reféns em cativeiro

Tudo começou com o briefing. Reunião numa sala pequena. 43 policiais equipados se apertavam entre as cadeiras para saber qual seria o plano naquela noite. Ocorrera um sequestro com cárcere privado. Já sabíamos onde o cativeiro estavam e o objetivo era libertar os reféns.

Saímos até o ponto de encontro de toda a tropa. O problema era que só alguns policiais conheciam o terreno. Era noite de lua cheia. O caminho acidentado e com a mata na altura dos joelhos. A caminhada era a tática, para não fazer barulho, e o fuzil o G36.

Caminhar nessa posição é desgastante. Eu já podia sentir as costas ardendo. Várias vezes tivemos que nos abrigar e deitar. O inimigo podia aparecer de qualquer posição. Tivemos que atravessar um pequeno riacho. Sorte que estávamos preparados. Desequipamos, botamos toda a roupa e equipamentos em um saco plástico para que chegassem do outro lado secos.

Lembro de sair do riacho, equipar, voltar a caminhar, com dor nas costas e os ombros cansados. Já tinham se passado 5 horas do início de tudo. Olhei à retaguarda, a procura de alguém que quisesse nos surpreender, e vi a lua. Caramba, como ela estava bonita e vermelha. Até chamei pelo colega e falei baixinho: que lua, hein!

Mas o acalento do nosso lindo satélite natural não durou muito. Logo um colega tropeçou num cordão que fez explodir uma bomba. Fiquei atordoado. Meio cego, meio surdo. Desnorteado. Alguns companheiros feridos. Mas tínhamos que prosseguir, o alvo estava perto.

De repente ouço gritos lá da frente do pelotão: Polícia Federal, mãos na cabeça!! Vários disparos e um silêncio. Bandido morto. Reféns liberados.

E, nessa hora, tudo volta ao normal. E os professores nos parabenizam pelo exercício de patrulha noturna bem sucedido. O riacho era a piscina. Mas juro que parecia um riacho.


Já eram quase 22h. O dia foi exaustivo. Cansados e sujos, jantamos e voltamos para nossos alojamentos, tomar banho e dormir o mais rápido possível. Afinal, amanhã tem mais aula.

sábado, 27 de junho de 2015

E tudo começou com um bêbado deitado na BR

Um veículo para na UOP e nos avisa: tem um bêbado no quilômetro X deitado na BR. Pergunto: ele está vivo ou já foi atropelado? Vivo, ele responde!

Corremos eu e minha equipe (mais um policial) para atender à chamada. Chegamos ao quilômetro informado uns 15 minutos depois do aviso do usuário, e o cara estava simplesmente deitado no meio da faixa. Carros desviavam e, se fosse à noite, ele já estaria em pedaços, como um bicho esmagado no chão. Ele estava com o nariz inchado e sangrando, e alegava que tinham batido nele. Foi quando sua mulher, do nada, apareceu por lá. E é quando a história começa a mudar seu rumo.

Ela pediu para darmos carona a ele até em casa, uns 20km de distância. Eu falei que não, que precisaríamos levá-lo ao hospital para ver aqueles ferimentos. Ela falou que não teria dinheiro para voltar com ele do hospital, pois só tinha R$ 10 e o retorno custaria R$ 20. A equipe fez uma cotinha e completamos a passagem de volta. Entramos todos na viatura e fomos em direção ao hospital. A viagem duraria uns 20 minutos, estávamos próximos a uma cidadezinha daqui.

E na viagem fomos conversando com ele e a esposa, que nos relatou que ele batia nela. Pensei: empurro ele da viatura em movimento? Seria melhor tê-lo deixado na BR pra passarem por cima? As duas opções me pareciam bem legais. Eu simplesmente não consigo aceitar homem que bate em mulher. Inclusive minha vontade era de lhe dar mais um soco no nariz.

Ainda durante a viagem o cara manda, aos xingamentos, a mulher ligar para o patrão dele. Quando eu não aguento e interfiro, pela primeira vez, como policial, mandando-o calar a boca e perguntando: você acha que está falando com quem, fil** da put*. É tua mulher, respeite. Até então estávamos tratando ambos como vítima. Agora minha vontade ela levá-o à delegacia. Que caia o nariz dele, vamos à delegacia!

Porém a esposa não quis ir. Levamos ao hospital. Falamos para ela que caso ele a agredisse novamente, para ela ir no posto que a gente o prenderia, mas ela disse que não tinha dinheiro para ir até lá, que algumas vezes ela dormiu no mato, porque ele expulsou ela e a filha de casa, bêbado. E aí você simplesmente se vê impotente, sem saber o que fazer. E tive que me retirar, para não chorar em frente a todos. Porque é muito triste ver a situação daquela família. E eu até consigo atender um acidente com vítimas fatais sem me abalar tanto. A pessoa já morreu, não há nada que eu possa fazer e não existe agonia. Mas quando a gente se sente frustrado por não poder ajudar, isso dói demais.

E o que começou com o relato de um bebum deitado na BR, terminou com um policial, armado com uma ponto 40, colete balístico e uma submetralhadora, simplesmente sem saber o que fazer, chorando feito uma criança diante de tamanha sensação de impotência.