
Rapaz, fazia tempo que eu não mexia por aqui, mas, num domingo, me lembrei de uma história boa de contar e um pouco cômica. Vamos a ela!
Quando eu era lotado em uma Superintendência, as operações eram mais frequentes. Nesse dia de operação, eu estava convocado para fazer parte da equipe de custódia. É a equipe que fica responsável por receber os presos das equipes que saíram para cumprir os mandados. Nem todas as operações têm essa equipe. Normalmente, só as operações grandes.
A equipe que chega com o preso fica responsável pelos procedimentos da prisão. É a equipe que foi executar o mandado. Faz todos os procedimentos até o momento em que termina tudo e, então, entrega o preso para a equipe de custódia da operação. Essa equipe o mantém na cela até o momento em que todos os presos estão prontos para partir.
Levamos os presos para o IML, para fazer o exame de corpo de delito, e depois para a penitenciária. É quando o filho chora e a mãe não vê. É quando cai a ficha dos nossos clientes. Pena que não ficam lá por muito tempo. Mas isso é outra história.
Chegando à penitenciária, também há alguns procedimentos a serem feitos. Nesse caso, não precisam ir todos os policiais. Os policiais penais já pegam os presos, trocamos nossas algemas pelas algemas deles, e eles os levam para uma cela de espera.
Enquanto esperávamos os procedimentos burocráticos acabarem, ficamos próximos àquela cela de espera. E a PM ia chegando: viaturas e mais viaturas, com presos e mais presos. Todos, antes de serem colocados na cela de espera, estavam sendo algemados com as mãos para trás. Era a época mais crítica da pandemia de COVID-19, por volta de 2020 ou 2021.
Estávamos jogando conversa fora com o policial penal quando desceu da viatura da PM um preso com uma Bíblia na mão.
Pensei: “Esses caras com a Bíblia na mão sempre são os piores.”
Mas vai que era preconceito meu, né?
Pois é. Não era.
Esse cara — por volta dos 20 anos — chegou xingando os policiais penais. Gritava que estávamos em uma pandemia, que ele tinha que estar isolado. O policial penal mandou ele se aquietar. Ficar na dele. E perguntou, em tom de ironia:
— Rapaz, tu quer uma cela só pra ti, é?
O preso gritou de volta:
— Que rapaz? Tu nem é policial e tá falando! Os federais que são policiais aí do lado não estão falando, e você está falando!
Eu pensei e comentei com a colega que estava ao meu lado:
— Esse aí tá com coragem e com vontade. Se eu fosse ele, xingaria a gente, que é da PF, mas trataria o policial penal da melhor forma possível. Afinal, é ele que vai estar lá dentro com o doido.
Nesse momento, o policial penal nos olhou, deu uma piscada e disse, em tom suave:
— Deixa ele comigo mais tarde. Vai ficar calminho.
Eu, na minha imensa sabedoria, supus que ele daria um calmante para o preso. Acho que era do que ele estava precisando naquele dia. Estava muito nervoso.
Acho que o policial penal era médico também! Não sei qual foi o desfecho.
Terminaram os procedimentos dos nossos clientes e fomos embora.
Trabalho feito, com mais uma história para contar!